A VOZ
Chegou a casa depois do trabalho, a luz da sala estava ascendida. Antes de ingressar pensou no que lhe diria a sua mulher, mas, então, deu-se conta de que já não sabia o que ia dizer. Tentou recordar mais não pôde e ao ver a sua mulher tão formosa desistiu do tudo. Jantaram ligeiramente e depois fizeram amor.
Ele acordou na madrugada sobressaltado por uma voz que entre sonhos lhe gritou ao ouvido: “¡Tens que poder!” E foi tão real que ele já não pôde dormir. Saiu da cama para acender a luz da habitação. Observou a sua mulher que dormia indefesa e ficou a olhando com carinho por um bom momento. No entanto, conforme olhava-a começou a sentir verdadeiro incomodo, dor de cabeça e uma forte opressão no peito. Não entendeu que sucedia, mas depois uma lágrima rodou por uma de suas bochechas. Apagou a luz e tentou dormir, mas não o conseguiu.
No transcurso do dia, ainda no trabalho, esteve tratando de recordar o que tinha que lhe dizer a sua mulher; mas tinha-o esquecido. Desde menino sua memória era-lhe infiel especialmente com o desagradável. Nesta ocasião, no entanto, a amnesia tinha superado às outras vezes. Então, aquela voz enojada interrompeu-lhe: “Tens que poder!” Olhou a todos lados, mas seu escritório estava vazio.
Aquela noite ao fazer amor com sua mulher seguiu escutando a voz que se misturava com as carícias e gemidos. Na madrugada novamente acordou-o e seguiu-lhe incomodando até que soou o despertador.
Ele seguiu tentando recordar. E de quando em quando lhe vinham como imagens, mas depois voltava ao esquecer tudo.
Chegou a noite e a voz era mais insistente. Tratou de fazer amor com sua mulher, mas não pôde. Na madrugada outra vez o grito: “Tens que poder!”, fê-lo acender a luz. Fixou a vista em sua mulher e uma força desconhecida o fez pegar um almohadón e tratar de asfixiá-la. Ela sentiu que se afogava e tentou o arranhá-lo. Quase a ponto de morrer ele tirou a almohada de seu rosto e ela esteve por um bom momento tratando de recuperar o alento. Depois reagiu e lhe increpó a ele sua atitude homicida. Ele lhe pediu perdão. Disse-lhe que não era ele. Que era “a voz” a que o dominava. Ela assustada tentou deixar a casa, mas ele lhe suplicou que não o fizesse. Prometeu-lhe que iria ver a um psiquiatra e que tudo estaria bem.
Os medicamentos e a terapia recomendada pelo psiquiatra o aliviaram. Deixou de escutar a voz, e voltou a fazer amor com sua mulher como antes. No entanto, a mulher não punha maior entusiasmo em suas relações carnais. Diríase que não precisava de sexo.
Tudo esteve em acalma até que no trabalho se encontrou com aquele envelope anônimo com fotografias em cima de sua escrivaninha e então recordou aquilo do que tinha tido notícias dias antes. A voz voltou a revelar-se: “Tens que poder!” “Tens que poder!” “Tens que poder!”
A forte dor na cabeça e o acosso da voz obrigaram-lhe a regressar a casa cedo. Encontrou a sua mulher e ao amante na cama. Quase não o notaram, mas finalmente advertiram sua presença e o homem se vestiu rapidamente, e se marchou igual de rápido. Ela tratou de lhe explicar tudo a ele. No entanto, ele parecia acalmado. E com muita acalma foi à cocina de onde pegou a faca. Ela ao o ver se pôs a gritar e a rogar por sua vida, mas ele não a escutava, não podia a escutar. Só escutava à voz que lhe dizia: “Tens que poder!” E sim pôde.
PABLO ALBERTO TORRES VILLAVICENCIO
jueves, 10 de junio de 2010
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